Atestado aponta tromboembolismo na morte de professora durante batismo em Barras
Declaração de óbito aponta tromboembolismo pulmonar como causa da morte de professora de Boa Hora durante batismo em terreiro de Barras; comunidade religiosa repudia especulações e denuncia intolerância religiosa.
A declaração de óbito de Janaína Plácido, de 31 anos, aponta insuficiência respiratória aguda e tromboembolismo pulmonar como causas da morte. Ela passou mal durante o próprio ritual de batismo em um terreiro de religião de matrizes africana, em Barras, a 119 km de Teresina, na madrugada da última quinta-feira (15). A informação foi divulgada pelo terreiro em nota publicada nas redes sociais.
O tromboembolismo pulmonar acontece quando um coágulo se desloca pela corrente sanguínea e bloqueia uma artéria do pulmão. Isso dificulta a respiração e a circulação do sangue.
Janaína era natural de Boa Hora, filha de santo da casa e professora de apoio na Escola Municipal Luiza Elisa de Melo. Em nota de pesar, a escola lamentou a morte e destacou a dedicação, o carinho e o compromisso dela com a educação.
Segundo a Polícia Civil, o ritual começou à meia-noite e seguiu até por volta das 2h. Ela foi levada ao Hospital Regional Leônidas Melo, mas chegou à unidade já sem vida. O corpo passou por perícia no IML de Piripiri.
O caso é investigado em inquérito presidido pelo delegado Robert Freire. A reportagem aguarda retorno do delegado sobre o resultado do laudo do IML.
Terreiro repudia associação com o ritual
Na nota, assinada também pela assessoria jurídica da casa, o terreiro afirma que não há comprovação de vínculo entre a morte e qualquer ritual ou prática religiosa realizada no local. A casa repudia as tentativas de associar a fatalidade à fé professada no espaço.
O terreiro também critica a forma como portais e canais de comunicação trataram o caso, dando destaque ao ambiente religioso. Para a casa, isso pode reforçar preconceitos contra as religiões de matriz africana. A nota questiona se a prática religiosa também seria colocada sob suspeita caso a morte tivesse ocorrido em uma igreja católica ou em um templo evangélico.
“Problemas de saúde podem acometer qualquer pessoa, em qualquer lugar, independentemente de sua religião”, diz um trecho do texto.
“Perdemos uma pessoa muito querida”
Kate Machado, conhecida como Mãe Kate de Iemanjá, é dirigente espiritual de uma casa de umbanda em Barras. Ela publicou um vídeo nas redes sociais pedindo respeito à família de Janaína e à comunidade de terreiro da cidade.
“Perdemos uma pessoa muito querida, e vocês deveriam respeitar esse momento de dor que todos nós estamos passando. Não somente a família dela, mas a família de axé que ela escolheu fazer parte também está sofrendo com essa perda”, disse.
Na fala, ela se refere à morte de Janaína a partir da visão da religião. “Perdemos no sentido humano. Ela apenas voltou para o Orum, para o plano de luz, para um outro plano.” Orum é como as religiões de matriz africana chamam o plano espiritual.
No vídeo, a mãe de santo afirma que integrantes da comunidade passaram a ser alvo de acusações e boatos depois da morte, principalmente em grupos de WhatsApp da cidade.
“Tantos nomes sendo acusados de tantas coisas, sendo que o laudo já saiu e já sabemos o motivo. A perícia foi feita, foi comprovado, e vocês ainda assim continuam a disseminar ódio contra o nosso povo”, afirmou.
Ela também criticou reportagens publicadas logo após o caso. Segundo ela, os textos foram feitos sem que os fatos fossem apurados.
Para a dirigente, quem desconhece os cultos de matriz africana não deveria opinar sobre eles. “Intolerância religiosa é crime”, disse.
No fim do vídeo, ela se despediu de Janaína. “Desejo de coração que ela encontre mais ainda luz nos caminhos dela, a luz que ela a vida inteira buscou. ”
A Lei 7.716/1989 prevê pena de um a três anos de reclusão, além de multa, para quem pratica, induz ou incita discriminação ou preconceito por religião. Denúncias de intolerância religiosa podem ser feitas pelo Disque 100, que funciona 24 horas, ou em qualquer delegacia.
Confira a íntegra da nota
Nota de esclarecimento e repúdio
Em defesa da verdade, do respeito aos povos de terreiro e da responsabilidade na informação
Diante das notícias e dos comentários divulgados acerca do falecimento de Janaína Plácido, filha de santo de nossa casa, ocorrido nas dependências de nosso terreiro localizado no município de Barras, no Piauí, vimos a público prestar os devidos esclarecimentos e manifestar nosso repúdio a toda tentativa de associar essa lamentável fatalidade à prática religiosa realizada no local.
Conforme as informações e os elementos técnicos disponíveis, incluindo a declaração de óbito, o falecimento está relacionado a complicações de insuficiência respiratória aguda e tromboembolismo pulmonar, sem comprovação de vínculo com qualquer ritual ou prática religiosa realizada em nossa casa. Portanto, é fundamental que os fatos sejam tratados com seriedade, sem distorções, especulações ou narrativas que atribuam à religião uma responsabilidade que os elementos disponíveis não demonstram.
Ocorrência de uma fatalidade em um ambiente religioso não autoriza, por si só, a criação de suspeitas ou a associação do acontecimento à fé professada naquele espaço. Problemas de saúde podem acometer qualquer pessoa, em qualquer lugar, independentemente de sua religião, de suas crenças ou das circunstâncias em que se encontre.
Causa preocupação a maneira como determinados portais e canais de comunicação abordam episódios dessa natureza, dando destaque ao ambiente religioso e, em alguns casos, contribuindo para a disseminação de interpretações que podem induzir a população ao erro e alimentar preconceitos contra as religiões de matriz africana.
Cabe uma reflexão necessária: se essa mesma fatalidade tivesse ocorrido em uma igreja católica ou em um templo evangélico, a prática religiosa também seria colocada sob suspeita? O tratamento da informação deve ser pautado pelos mesmos critérios de imparcialidade, respeito e responsabilidade, independentemente da religião envolvida.
A liberdade de imprensa é um pilar da democracia. Entretanto, informar exige compromisso com a verdade, apuração criteriosa dos fatos e respeito à dignidade humana. A divulgação de notícias não pode servir de instrumento para alimentar o sensacionalismo, reforçar estigmas históricos ou estimular a intolerância religiosa.
Manifestamos nossa solidariedade aos familiares, amigos e a todas as pessoas que sofrem com essa irreparável perda. A memória de nossa filha Janaína merece respeito, assim como a dor de seus entes queridos, que não deve ser agravada pela circulação de informações distorcidas ou por julgamentos sem fundamento.
Reafirmamos, ainda, nosso respeito aos povos de terreiro, às suas tradições e à liberdade de crença, garantida constitucionalmente. Nenhuma comunidade religiosa deve ser estigmatizada ou responsabilizada por uma tragédia com base em preconceitos, suposições ou associações desprovidas de comprovação.
Diante disso, solicitamos responsabilidade na divulgação dos fatos, respeito à memória da jovem falecida e a cessação de qualquer narrativa que associe, sem fundamento, sua morte à prática religiosa realizada no local.
A verdade deve prevalecer sobre a especulação. A dignidade humana deve estar acima da audiência. E o respeito à liberdade religiosa deve ser um compromisso de toda a sociedade.
Informar com responsabilidade é um dever. Respeitar todas as religiões é um compromisso com a democracia, com a justiça e com a dignidade humana.
Terreiro de Umbanda Senzala de Vovó Maria Redonda
Assessoria jurídica
Jefferson Felipe Freitas Dias, OAB-PI 21.058
Carlos Augusto Furtado, OAB-PI 24.376
Fonte: Cidade Verde

