POVOADO CONCEIÇÃO DO BOQUEIRÃO por Celson Chaves
A QUESTÃO DO POVOAMENTO
São poucas as informações sobre a colonização do antigo povoado Boqueirão pertencente a Campo Maior. Existem apenas relatos populares. Algo impreciso e cheio de lacunas. Boqueirão teria originado a partir de uma fazenda do mesmo nome?
Era comum nome de fazenda Boqueirão. Existiam várias no Piauí Colonial. As que permanecem certamente são recentes. Coisa de um século e meio. O primitivo território da freguesia de Santo Antônio do Surubim possuía algumas fazendas e sítios (em Teresina, União, Barras e Campo Maior) com essa denominação. A localidade Conceição do Boqueirão foi uma das últimas regiões a emancipar-se de Campo Maior. Tal ocorrência deve-se ao seu povoamento tardio? Sabemos que o processo do povoamento português na região deu-se margeando rios, riachos e largos. É possível que o atual município de Boqueirão do Piauí tenha sido povoado logo no início da formação do território da freguesia do Surubim, entre 1711 e 1715?
Os documentos que dão contam da existência de fazendas com nome Boqueirão em Campo Maior são os mais antigos. Infelizmente, não estabelecem suas localizações. As fontes são: A Relação de todos os possuidores de terras desta Capitania de São José do Piauí (15/11/1762) escrito pelo desembargador do Conselho Ultramarino no Piauí Francisco Marcelino de Gouveia; e Memória Cronológica, Histórica e Corográfica da Província do Piauí (1857) de José Martins Pereira de Alencastre.
A CAPELA (1957)
Levou-se um longo tempo até construir a primeira capela do Boqueirão. A edificação de uma Igreja era o principal indício de crescimento demográfico, desenvolvimento social e econômico de um povoado. As fazendas e sítios foram responsáveis pelo povoamento português na região. Mas os núcleos populacionais nascentes em torno dessas propriedades rurais eram reconhecidos pelos governos somente com a construção de capelas. Com Boqueirão não foi diferente.

A colonização do povoado foi lenta, lentíssima. A criação de currais forjava um povoamento disperso na região. Somente na década de 1950, com o aumento no número de fazendas, sítios e os fluxos de romeiros ao antigo “cemitério do Boqueirão” possibilitaram a edificação de uma capela. Em torno do tempo católico, formou-se o núcleo urbano da povoação.
A Capela de Nossa Senhora da Conceição foi fundada pelo padre Mateus Cortez Rufino em 1957. O sacerdote esteve responsável pela criação de outras capelas em outros povoados de Campo Maior. Ele era um visionário, um construtor de igrejas. Ao comandar a paróquia de Santo Antônio de Campo Maior promoveu série de mudanças. Reativou associações e instituições religiosas com intuito de melhorar as condições de assistências espiritual, social e material aos católicos. A situação da Igreja no interior era precária. Os fiéis encontravam-se desassistidos por longo período do ano. O território da paróquia era enorme e faltavam padres para atender a gigantesca clientela. Padre Mateus durante seu paroquiado conseguiu manter visitas regulares as comunidades rurais. Pelos menos nas regiões mais populosas.
O surgimento da capela do povoado Conceição do Boqueirão nasceu de uma vasta programação, visitação e reconhecimento do extenso território da paróquia de Santo Antônio de Campo Maior. Padre Mateus oferecia assistência religiosa ao rebanho que se encontrava disperso e buscava informações gerais sobre os problemas e desafios a serem enfrentados na administração da paróquia.
A construção de igrejas nas regiões mais populosas do interior de Campo Maior foi à estratégia escolhida pelo padre Mateus para atender de forma sistemática os paroquianos. Até então, Alto de Nazaré (hoje cidade) era o único povoado que possuía templo. Sua construção remota ao ano de 1917.
O POVOADO (1964)
A partir da criação da capela em 1957, o crescimento populacional foi vigoroso. Surge à necessidade de criar uma infraestrutura básica no povoado para atender os moradores. A infraestrutura do Boqueirão nasce a partir da criação oficial do povoado. Isso acontece em dois momentos. Em 1964, com aprovação da Lei municipal nº 559. Contudo, a lei não foi reconhecida pelo IBGE, portanto, não teve a validade institucional no ato de registro do povoado junto ao órgão federal. E, em 1968, o vereador Severo Augusto da Paz apresenta outra lei na Câmara de Campo Maior que eleva pela segunda vez “à categoria de povoado o lugar Boqueirão”. Na apresentação da lei de 1968, em substituição a de 64, o edil argumenta que:
“O lugar Conceição do Boqueirão, deste município, já por lei votada pela egrégia Câmara Municipal de Campo Maior, de então, elevada à categoria de povoado, porém o foi sem requisito exigido por lei. No entanto, até agora não foi reconhecido, como povoado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, razão porque, apresenta a esta Casa o projeto acima, que entre em discursão e seja aprovado na forma estabelecida no Regimento Interno, de modo que a lei anterior seja renovada, dando aquele núcleo de população à categoria de povoado, atendendo os requisitos legais”.
Deste modo, ilustre vereadores, todos vós, conhecem perfeitamente o lugar que ora pleiteia à categoria de povoado, acredito V. Exªs., saberão preencher, conscientemente, os claros que constam do presente projeto, que assim, mais uma vez, tenho a certeza de que estamos trabalhando pela grandeza e prosperidade de nosso município.
Entre a criação da capela, em 1957, até a fundação do povoado, em 1968, formou-se uma infraestrutura básica na região com estradas carroçáveis, escola (1965), posto de saúde, casas comerciais, bomba de gasolina e óleo.
DÉCADA DE 1970 – O ESTABELECIMENTO DA INFRAESTRUTURA
A partir da criação do povoado houve aumento demográfico, desenvolvimento social e econômico. Mediante isso, os moradores começaram a cobrar das autoridades melhorias e ampliação nos serviços públicos. Na década de 1970, foram instaladas as bases da infraestrutura necessária para a manutenção do crescimento na região: energia e água.
Em 1977, foi instalado o primeiro gerador de energia, estabelecendo assim, uma pequena Usina Elétrica para o fornecimento de luz no povoado. Três anos depois (1979), foi à vez da inauguração do sistema de abastecimento de água pelo SAAE.
A falta de energia no povoado era um dos maiores desafios enfrentado pelos moradores. A região chegava a ficar meses sem energia por conta de danificação no motor da Usina. O gerador encontrava-se em péssimo estado de conservação, apresentava vários problemas. Os vereadores protestavam e se manifestavam a respeito do assunto, cobrando solução definitiva para o fornecimento de energia no povoado.
”Usou da palavra o vereador Raimundo Alves da Silva, falando com referência ao motor elétrico do povoado Boqueirão, o qual venho acompanhando os seus consertos que estão sendo quase que inúteis. O vereador João Alves falando a respeito também do motor elétrico do povoado Boqueirão dizendo que mandar motor para Teresina, volta para Boqueirão, isso não resolve nada, o que resolve mesmo é o prefeito deixar de somar débitos e se dispor a comprar um motor novo. […] o vereador Raimundo Ibiapina dizendo que concorda em parte com o nobre colega João Alves, quando diz que tudo tem limite é claro que se não houver mais possibilidade de recuperar esse motor, outro devera ser comprado, eu acredito tanto que o senhor prefeito, com seus assessores, quando acharem que a recuperação daquele motor não der mais para ser feito recuperação, eles procurarem solucionar o problema comprando um novo motor (Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior, 19 de julho de 1977)”.
O sistema elétrico na cidade era deficiente e precário, mas a situação no interior foi muito pior. Assim como na sede, os povoados possuía uma estrutura com rede elétrica composta de postes de madeira que suspendia a fiação de energia de curta extensão. O cabeamento elétrico fora instalada na área central do povoado. O óleo diesel era o combustível usado na geração de energia. Do mesmo modo como na cidade, a iluminação pública no povoado era reduzida. Durava entre às 18hs e 22hs. A falta de energia era constante. O povoado vivia às escuras. As reclamações era muitas e os pedidos para solução do problema acabavam ecoando no plenário da Câmara Municipal de Campo Maior.
“Também quero apenas dá um pequeno esclarecimento de que várias máquinas e motores, que estavam parados já estão em funcionamento, inclusive o motor de boqueirão (Ata Sessão Ordinária de Câmara Municipal de Campo Maior, 22 de julho de 1977).”
“João Alves […] continuando falou a respeito do problema da luz do povoado boqueirão, que mais uma vez o povoado, se encontra às escuras (Sessão Ordinária de Câmara Municipal de Campo Maior, 17 de maio de 1978).”
O fornecimento de energia possibilitou maior conforto a população e a introdução de outros serviços públicos como a implantação do posto telefônico. A prefeitura mantinha também um aparelho de rádio e tv no povoado.
“Usou da palavra o vereador Raimundo Alves […] e fez uma apelo ao sr. líder do prefeito para que leve até ao sr. prefeito que mande consertar ou qualquer outra providência nos televisores dos povoados Boqueirão e Nazaré, pois estão em situação precária (Sessão Ordinária de Câmara Municipal de Campo Maior, 15 de maio de 1978).”
A implantação da rede elétrica da CEPISA foi instalada somente em 1986, na gestão do prefeito Cézar Melo. Os problemas de Boqueirão eram discutidos e debatidos no plenário da Câmara Municipal de Campo Maior. Visa-se encontrar soluções para os transtornos mais urgentes.
Os avanços nos serviços públicos foram poucos na década de 1970. O abastecimento de água era outro problema grave. Entre 1950 e 1970, foram perfurados diversos poços tubulares, tanto na sede do povoado como em suas principais localidades: Sambaíba, Rua 10… Mesmo assim não conseguia atender a demanda dos moradores. Em período de secas o problema se agravava. Entravam em cena os famosos carros pipas que consumia vultosa soma de recurso público. O sistema de água no povoado foi implantado pelo SAAE sob a orientação do engenheiro Bosco e outros técnicos:
“Falou o vereador José Felipe trazendo para o conhecimento desta Casa, o resultado das viagens que fez com o engenheiro Bosco, que foi informado pelo chefe do escritor local do SAAE que foi aprovado a implantação do serviço de água nos povoados Jatobá, Cocal de Telha e Boqueirão (Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior, 24 de agosto de 1977).”
A implantação do sistema de abastecimento de água no Boqueirão foi lenta. Levou três anos. De 1977 a 1979. José Felipe de Oliveira foi um dos primeiros vereadores a provocar o debate sobre a necessidade do fornecimento de água nos povoados mais populosos de Campo Maior. Ele travou vários debates e fez diversas reivindicações no plenário da Câmara Municipal para que o prefeito Joaquim Mamede Lima desse início a projetos para criação do sistema de abastecimento de água pelo SAAE nos povoados Boqueirão, Jatobá e Cocal de Telha. O SAAE não tinha recursos financeiros e nem técnicos suficientes para executar os projetos, que foram tocadas com recursos estadual e federal.
DÉCADAS DE 1980 E 1990: AMPLIAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DA INFRAESTRUTURA
Os avanços na infraestrutura do povoado ocorreram entre 1980 e 1994. Apesar da persistência de velhos problemas, houve uma sensível melhora nos serviços públicos. Ampliou-se a rede elétrica, estendendo o cabeamento para as maiores localidades do povoado. Os recursos hídricos também tiveram um significativo acréscimo com a construção de açudes na gestão do prefeito Joaquim Mamede Lima e posteriormente a ampliação das bacias hídricas por outras administrações.
Além de açudes, Mamede Lima (1977-1892) recuperou a estrada de Nazaré a Boqueirão, reformou o posto de saúde edificado na administração do professor Raimundo Nonato Andrade (1967-1971). Cézar Melo (1983-1988) além de abrir novas estradas, interligando a sede a suas principais localidades, calçou as primeiras ruas do povoado, reformou o posto telefônico e construiu a Unidade Escolar Jerônimo Abreu no lugar Vila Nova. Raimundo Nonato Bona (1989-1992) deu prosseguimento à política de abertura de novas estradas carroçáveis, recuperando e ampliando as existentes, implantou o antigo 1º Grau (ensino fundamental).
O sistema de transporte melhorou. Surge a primeira linha de ônibus da região. A empresa Conrado torna-se responsável pela condução de passageiros até a cidade. No governo do Marco Bona (1990-1994) implantou-se a torre de retransmissão do sinal de Tv, ampliou e interligou a rede elétrica da CEPISA da sede aos lugares Simbaíba e Rua 10, ampliou o posto telefônico e construiu a praça do povoado.
Nas décadas de 1980 e 1990, os avanços foram maiores. A região se fortaleceu politicamente, conseguindo eleger até dois representantes para Câmara Municipal de Campo Maior. Cresceu o número de habitantes, por conseguinte, o de eleitores.
Houve avanços na educação, com a instalação de escolas na sede e nas principais localidades do povoado. A maioria das escolas possuía apenas uma sala de aula. Antes da implantação do ensino fundamental no Boqueirão, os alunos deslocavam-se até a cidade para continuar os estudos. O sistema de saúde expandiu. Criou-se mais postos de saúde, estabelecendo-os nas maiores comunidades do povoado. Os atendimentos médicos, odontológicos e agentes sanitários tiveram certa regularidade. As visitas passaram a ser semanais.
DE POVOADO A CIDADE
A necessidade de avançar na ampliação dos serviços públicos no Boqueirão fez surgiu o sentimento em prol da emancipação político-administrativa do povoado. A ideia deu-se a partir de interesses político-eleitorais e na elaboração de um discurso sobre a importância dos benefícios para o povoado com a emancipação. Os debates iniciaram no ano de 1990 e finalizaram com a confirmação do plebiscito e a sanção pelo Governo do Estado da lei nº 4. 680 de 26 de janeiro de 1994.
“Falou inicialmente o vereador Benício Barros Alves […] da emancipação dos povoados Nazaré, Boqueirão e São Joaquim, defendendo a emancipação como solução para muitos problemas que estes povoados têm; finalizando pediu apoio dos demais vereadores para este trabalho de conscientização do povo com relação à necessidade da emancipação de suas comunidades (Ata da Sessão Ordinária de Câmara Municipal de Campo Maior, 03 de dezembro de 1993)”.
Os debates na Câmara Municipal de Campo Maior foram intensos e apaixonantes. Os vereadores Antônio Silva e Francimeire Chaves conduziram o processo de emancipação política do Boqueirão no Legislativo. O prefeito Marco Bona e o deputado Cézar Melo também se envolveram nas discussões. Os debates no plenário foram muitos. Uns relevantes, outros nem tanto.
Os principais argumentos em favor da emancipação dos povoados eram de ordem econômica e administrativa. Contudo, a razão fundamental era político-eleitoral. O surgimento de novos municípios representava o fortalecimento de lideranças e vereadores, bem como a formação de novas estruturas de poder.
No processo de criação de novos municípios na região dos carnaubais, na primeira metade da década de 1990, foram incluídos os seguintes povoados: Nazaré, Boqueirão, Sigefredo Pacheco, Cocal de Telha, Jatobá e até o São Joaquim. O último foi logo descartado da lista. Os vereadores da Câmara de Campo Maior tomaram para si a liderança na condução dos projetos de emancipação político-administrativa. Parte deles residia nos povoados. Em Nazaré, Benício Barros; Sigefredo Pacheco, Raimundo Pereira Neto e França Gomes; Boqueirão, Francimeire Chaves e Antônio Silva. Luís Cezar Pires até tentou emplacar o povoado São Joaquim na discussão, mas foi vencido. Sabotaram suas pretensões políticas.
“Falou o vereador Luís Cesar Aragão Pires Ferreira […] Criticou as pessoas e/ou políticos que orientaram os eleitores para dizer não no plebiscito no povoado São Joaquim. Criticou as Rádios de Campo Maior por não ter lhe concedido espaço para falar ao povo do povoado São Joaquim para orientá-lo para votar no plebiscito (Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior, 13 de dezembro de 1993).”
A imprensa acompanhava o desenrolar das articulações políticas em torno da emancipação dos povoados Boqueirão, Conceição do Brasão (Atual Sigefredo Pacheco), Jatobá e Nazaré.
A proliferação de Feke News, burocracia documental, intrigas e acirramentos políticos entre aliados e apoiadores de Carbureto e Cezar Melo acabaram atrasando um pouco a emancipação do Boqueirão. Vereadores manifestaram sobre as causas e frustração quanto à primeira tentativa de emplacar o processo de emancipação do Boqueirão em 1992.
“João Alves […] Parabenizou o vereador Pereira Neto e França Gomes pela emancipação de Conceição [do Brasão] e lamentou o fato do povoado Boqueirão não ter sido emancipado por culpa do Deputado Cezar Melo” (Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior, 27 de abril de 1992)”.
Antônio Silva – Comunicou ao vereador João Alves e aos demais que não houve plebiscito no povoado Boqueirão por causa da documentação, que foi condenada pelo IBGE e não é culpa do deputado Cézar Melo (Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior, 27 de abril de 1992).
As expectativas era que o processo finaliza-se em 1992. Contudo perdurou por mais dois anos. O jornal a Tribuna dos Heróis comenta que Boqueirão: “Distante a 50 km da sede deste Município e que consta com grandes chances de emancipação política, para que haja eleições em 92, para prefeito e vereador”. Além dos vereadores Antônio Silva (aliado do deputado Cezar Melo) e Meire Chaves (aliada do prefeito Marco Bona); outras lideranças locais, principalmente suplentes de vereadores envolveram-se diretamente na emancipação do Boqueirão, caso de Manoel Lira, Expedito Lúcio e Mundico. Havia forças políticas trabalhando tanto para que os eleitores votassem a favor como contra o plebiscito.

Por Celson Chaves



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